quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Ginástica laboral ajuda a diminuir faltas e a aumentar lucros
No BCB, com apoio da Asbac/DF, um programa de Ginástica Laboral está em funcionamento!
Cresce número de empresas que apostam nas atividades físicas e terapias.
É possível contratar serviço por custo a partir de R$ 800 mensal.
Uma parada de pouco mais de dez minutos para que os funcionários façam exercícios de alongamento e relaxamento pode ajudar as empresas a aumentarem seus lucros. Cresce no Brasil o número de pequenas empresas que apostam nas atividades físicas e terapias como forma de melhorar a concentração e aumentar a produtividade dos colaboradores.
A ginástica laboral consiste em contratar um profissional para fazer exercícios com os funcionários durante o expediente. De repente, no meio do trabalho, todos param o que estão fazendo para se esticar, mexer o pescoço, quadril, coluna e pernas.
“Agora nós estamos passando por uma fase muito positiva, as empresas estão procurando prestadores de serviços mais organizados, para atender essa demanda do mercado, mas de forma organizada de forma profissional”, diz Valquíria de Lima, da Associação Brasileira de Ginástica Laboral.
Baixo investimento inicial
A empresária Sílvia Marques, que também é professora de educação física, entrou nesse segmento em 2007, com investimento inicial praticamente nulo. Ela montou um escritório na própria casa e usou a estrutura e o computador que já tinha. Para ela, o capital humano é primordial nessa atividade.
“A gente tem que buscar os profissionais no mercado capacitados ou não. Se não estão capacitados, a gente vai capacitá-los para que possam estar atuando com qualidade dentro da empresa”, revela.
O preço varia de R$ 800 a mais de R$ 10 mil por mês, conforme a quantidade de professores e o número aulas.
“Os programas de ginástica laboral são contratos anuais com renovações automáticas e isso dá certa segurança, não só pra gente como empresa, mas também para o próprio contratante, para que ele tenha a noção do que está tendo de resultado, porque um contrato pequeno ele não vai conseguir ver o resultado do programa”, diz Sílvia.
O professor Rodrigo Ferreira vai duas vezes por semana a uma empresa de informática fazer exercícios com a equipe de trabalho. Uma de suas funções é fazer a correção da postura dos funcionários.
Ele orienta, por exemplo, as mulheres a evitarem sentar com a perna cruzada. “A gente pede também para afastar [as pernas], até pra facilitar o processo de circulação”, diz o professor. Na sequência, vêm os exercícios. A sessão dura 12 minutos e os funcionários trabalham a região do pesçoco, mãos, pernas e, principalmente, coluna.
“A gente fica bastante sentado, então acaba sentindo dor sim. [Com os exercícios] melhora bastante”, diz Andrea Oliveira, uma das funcionárias da empresa. Para Álvaro Machado, outra colaborador da empresa de informática, a pessoa trabalha mais disposta. “É isso que faz a diferença.”
Arteterapia
Caso algum funcionário não queira ou não possa participar da ginástica laboral, a empresa de Silvia Marques também oferece a arteterapia. Trata-se de um trabalho diferente, que pode complementar a ginástica laboral ou ser feito como atividade única.
“O objetivo da arteterapia é fazer com que o colaborador sinta mais auto estima. Melhora sua auto confiança, estimula a criatividade, faz com que ele realmente perceba do que é capaz e isso reverte para o trabalho dele”, explica a empresária.
Depois de um rápido aquecimento, os funcionários vão trabalhar com argila e, enquanto criam formas, vão relaxando.
“No começo tinha um preconceito grande com relação a perder tempo, milhões de e-mails pra responder, mas é uma ideia muito legal. Acho que o objetivo de desestressar é alcançado quando a gente faz alguma coisa do tipo”, fala o funcionário Michel Marotti.
A colega Ana Lúcia Batata também é uma entusiasta da atividade. “Acaba somando com a parte de trabalho né, fica uma coisa mais legal pra gente trabalhar também”, diz.
A aula de artes pós-expediente resulta em esculturas variadas e funcionários mais relaxados para o dia seguinte. A aula de arteterapia é feita duas vezes por semana e cada sessão dura 50 minutos. A empresa cobra R$ 1.200 por mês pelo serviço.
Para a gerente de Recursos Humanos da empresa de informática, Denise Camargo, as aulas não podem ser consideradas despesas, mas sim investimento, com retorno garantido. Depois de um ano de ginástica e arte na empresa, as faltas diminuíram e a produtividade dos funcionários aumentou.
“A empresa ganha profissionais mais felizes, mais descontraídos, com mais qualidade de vida e eu acho que o retorno é garantido”, diz Denise.
http://g1.globo.com/economia/pme/noticia/2012/10/ginastica-laboral-ajuda-diminuir-faltas-e-aumentar-lucros.html
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Saúde é prioridade
Por Érica Quinaglia Silva e Vinicius Ratton Brandi - Valor 14/09
Em um aspecto a saúde pública não se distingue de outros serviços prestados pelo Estado brasileiro: a vastidão que separa a ampla justiça das leis e o duro cotidiano da população. Para citar alguns exemplos, basta invocar o artigo 6º da Constituição Federal, que estabelece como direitos sociais, além da saúde, a educação, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, entre outros. Com relação à saúde, a Constituição de 1988 extinguiu um regime com atendimento restrito aos contribuintes da Previdência Social (INAMPS) e instituiu o SUS (Sistema Único de Saúde), garantindo serviços de saúde universal e integral para a sociedade brasileira.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2010, os gastos com saúde por habitante no Brasil estão muito próximos da média mundial e 16% abaixo da média de países como Argentina, Uruguai e Chile. Se considerarmos apenas os gastos do governo, nossos números ficam, respectivamente, 36% e 30% abaixo da média. Os dados sugerem um espaço para ampliação dos gastos públicos, mas ainda assim não há garantias do pleno atendimento previsto nos dispositivos constitucionais. Com o permanente desenvolvimento tecnológico, a cada momento surgem novos exames, medicamentos e procedimentos médicos, aumentando as possibilidades dos gastos. Contribuem para o aumento dos custos, ainda, a maior longevidade da população e a intensiva atenção dispensada à população da terceira idade. E esse fenômeno está longe de se restringir à nossa realidade, motivando reavaliações na condução de políticas de saúde em diversos países.
Em economia, o racionamento é um mecanismo utilizado para restringir a demanda e manter os preços artificialmente baixos. No caso da prestação de serviços públicos o racionamento geralmente decorre da insuficiência de recursos para o atendimento completo da demanda. O racionamento se impõe, portanto, não como um ato explícito debatido entre os representantes da sociedade, mas de maneira implícita, na capacidade de arrecadação dos governos e na necessidade de repartição dos recursos escassos entre outras áreas. A mesma casa que garante a total amplitude dos direitos é a que aperta as amarras ao promulgar suas peças de diretrizes orçamentárias.
Na prática, quantidade e qualidade na prestação dos serviços de saúde acabam sendo comprometidas, resultando em longas filas de espera e grande insatisfação. De acordo com uma pesquisa publicada em janeiro de 2012 pela CNI em conjunto com o Ibope, 61% da população brasileira considera o serviço de saúde pública ruim ou péssimo e 55% considera a dificuldade/demora na obtenção do atendimento como seu principal problema, seguida da falta de estrutura e de médicos. Privilegiados arcam com os custos da rede privada ou adquirem planos de saúde na busca por um melhor atendimento, parcela que corresponde a aproximadamente 24% da população brasileira.
Essa total contradição entre o suporte legal e as possibilidades reais tem gerado um conflito entre os poderes Judiciário e Executivo. Não são raros os casos de sentenças judiciais obrigando governantes a proverem recursos para aquisição de medicamentos ou atendimentos em redes particulares, os quais muitas vezes são adquiridos às pressas a preços bem acima da média. Além da ineficiência inerente à compra não planejada, há casos em que esses recursos somam cifras elevadas e comprometem parte significativa do orçamento público. Um caso paradigmático é o das mucopolissacaridoses, pelo volume de recursos movimentados em cada ação e pelo tamanho reduzido da população. Entre 2006 e 2010, 195 indivíduos beneficiados por 196 decisões judiciais consumiram R$ 219 milhões com a compra de medicamentos para o tratamento dessas doenças genéticas raras.
A "judicialização da saúde", como tem sido chamada essa suposta ingerência, nos remete a questões jurídicas envolvendo a separação e competência dos poderes, mas especialmente a questões econômicas extremamente relevantes sobre como distribuir os recursos escassos da economia. É evidente a necessidade de se reconhecer o racionamento como condição perene e de se estabelecerem princípios e regras para a prestação dos serviços de saúde, nos quais sentenças isoladas sejam substituídas por políticas públicas sustentáveis e bem fundamentadas.
Um exemplo dramático dessa realidade envolve a cirurgia de remoção completa da mama (mastectomia) em pacientes vítimas de câncer. O serviço público garante a reconstrução mamária, reduzindo-se eventuais danos psicológicos decorrentes da alteração física da paciente. Porém, o tempo para realização da mastectomia com a subsequente reconstrução da mama daria para realizar três mastectomias. A longa fila de espera para realização da cirurgia e a impossibilidade de ampliação imediata na infraestrutura em algumas unidades colocam a equipe médica diante de uma "escolha de Sofia". Como complicador, há o fato de que a demora na realização da cirurgia pode comprometer as chances de cura das pacientes.
O filósofo e poeta norte-americano Henry David Thoreau já disse que "preço de qualquer coisa é a quantidade de vida que se troca por ela". Segundo esse raciocínio, a coisa mais cara ao ser humano seria sua própria vida, por completo. Em muitas situações, não é tão fácil saber a quantidade de vida que se ganha ou que se perde, mas ainda assim somos forçados a fazer escolhas. O racionamento significa fazer essas escolhas, com menor ou maior grau de complexidade, a partir do estabelecimento de prioridades a determinados tipos de pacientes, procedimentos ou doenças. Aspectos médicos e econômicos devem ser observados, mas esse é sobretudo um dilema ético. Trata-se de um problema típico de escolha social em que se pretendem melhorias no bem estar da sociedade face à heterogeneidade de seus integrantes e ao conjunto de seus valores morais. Não há solução fácil, mas a percepção do problema e a construção de um debate amplo e realista já representam um amadurecimento, um avanço.
Érica Quinaglia Silva é professora da UnB. Doutora em Antropologia e Sociologia pela Université Paris Descartes - Sorbonne. Pós-doutora em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva.
Vinicius Ratton Brandi é professor do Ibmec-DF e doutorando em Economia pela UnB.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Saúde não é linha de montagem de automóveis
Por Paulo Romano - Valor 23/08
Não parece razoável que um país onde se trabalha cinco meses do ano para pagar impostos as pessoas continuem a arcar diretamente com mais de 50% dos gastos totais com saúde. Isso ocorre no Brasil e em apenas outras 30 nações, a maioria pobre, apontou a Organização Mundial de Saúde (OMS), em levantamento divulgado no primeiro semestre deste ano. Infelizmente, as estatísticas comparativas revelam outras distorções.
O Brasil é a sétima maior economia do mundo, mas as verbas públicas que destina ao setor de saúde equivalem a menos da metade da média anual. Ou seja, a despeito de impor aos seus contribuintes uma pesada carga tributária, de quase 30% do Produto Interno Bruto (digna das desenvolvidas nações escandinavas), o Estado brasileiro não faz os investimentos necessários no setor.
Enquanto a média mundial de gastos públicos com a saúde é de 14,3%, no Brasil ela é de ínfimos 5,9%, inferior mesmo até a média do continente africano, de 9,6%. Houve avanços, registre-se, pois em 2000 essa proporção de gastos na saúde equivalia a modestos 4,1% do orçamento público global. Mas a melhora é insignificante se considerados os desafios a enfrentar.
O escasso investimento público é o que impõe à população um maior desembolso. Essa omissão também explica uma disparidade estatística: a baixa relação entre número de leitos hospitalares e número de habitantes, uma distorção que ganha contornos de crueldade se considerarmos a enorme demanda por serviços de saúde, sobretudo nos segmentos de menor renda e as classes médias ascendentes, que também usam a saúde suplementar, e a dificuldade de acesso da grande maioria da população.
Existem no país 26 leitos para cada grupo de 10 mil pessoas, contra uma média mundial que é de 30/10 mil, sendo que, na Europa e nos Estados Unidos, a disponibilidade é mais de três vezes superior à brasileira. Nada menos do que 80 países apresentam indicadores dessa relação melhores do que o Brasil, o que não deixa de ser um dado ainda mais vergonhoso se lembrarmos que ocupamos a 7ª posição entre as economias mais ricas do planeta (medida pelo tamanho do PIB).
Os gastos públicos com saúde por habitante no Brasil - assinala a OMS - são de US$ 320,00 anuais, enquanto a média anual é de US$ 549,00 (se consideramos os países de Primeiro Mundo, mais uma vez gastos são dez vezes maiores do que os brasileiros). Um dado em que o Brasil aparece bem, melhor ao menos do que a média global, é o número de médicos por habitante.
Há 17,6 médicos para cada grupo de 10 mil pessoas no Brasil, contra 14 por 10 mil na média planetária. Mas também neste aspecto há uma distorção gritante, pois enquanto regiões mais desenvolvidas, como as principais capitais, essa relação é favorável, na maior parte dos municípios das Regiões Norte e Nordeste, ou mesmo nas periferias, onde se encontram os contingentes mais pobres da população, ela está muito aquém da média mundial.
Mesmo a taxa de 17,6 profissionais para cada grupo de 10 mil habitantes, ainda que superior à média mundial, pode ser considerada ruim, se a comparação for feita com os países da Europa Ocidental, onde a relação médico/indivíduo é o dobro da verificada aqui. A constatação óbvia é que temos um PIB de primeira, com serviços de saúde que ainda deixam muito a desejar.
Tudo isso considerado, devemos passar a ter cada vez mais cuidado com os recorrentes alertar quanto à necessidade de se melhorar a produtividade nos serviços de saúde, em especial aqueles serviços relacionados ao sistema suplementar (privado). Os ganhos em produtividade são, evidentemente, indispensáveis, e devem estar aliados a uma série de outras providências, ações e programas relacionados à gestão dos recursos (tantos os financeiros quanto os humanos).
Portanto, tem sem dúvida razão quem reclama da falta de melhor gestão nos hospitais públicos. Estão igualmente no caminho correto os gestores do sistema suplementar (rede privada) quando estabelecem modernos procedimentos, normas e parâmetros visando a agilizar o atendimento, reduzir as filas e melhorar o desempenho da organização. Mas não podemos perder de vista que os serviços de saúde, por razões inerentes ao seu objeto, têm natureza singular.
A fila de atendimento no Pronto Socorro de um hospital - seja público ou particular - não pode ser equiparada à linha de montagem de uma montadora de veículos - ainda que o objetivo dessa insólita analogia, tão divulgada na mídia recentemente por uma grande rede de hospitais privados - seja agilizar os processos. As estatísticas mostram que faltam investimentos públicos em saúde no Brasil.
A pressão sobre a rede suplementar, com aumento de filas, é resultado dessa omissão. É legítimo que, neste contexto, hospitais particulares queiram aperfeiçoar seus procedimentos - desde que não percam de vista a qualidade dos serviços e a natureza dos mesmos, onde a vida humana é a exclusiva razão de ser. Mas é igualmente legítimo que, como profissionais do ser ou meros contribuintes, passemos a cobrar do Poder Público investimentos em saúde compatíveis com os desafios que enfrentamos e com a força de nossa economia. Sem que isso signifique ignorar o relevante e imprescindível papel que o segmento privado pode e deve continuar a desempenhar.
Paulo Romano é médico e membro do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
quinta-feira, 28 de junho de 2012
O pavão e a saúde suplementar
Por Bruno Sobral - Valor 28/06
Em uma comparação bem humorada, apresentada na edição de janeiro de 2012 da "Harvard Business Review", os escritores americanos Christopher Meyer e Julia Kirby citam as semelhanças entre o curioso caso do processo evolutivo do pavão e o mundo dos negócios. Explicam que a fêmea do pavão escolhe o macho tendo como único critério a beleza e o tamanho de sua cauda. A beleza da cauda é, portanto, a medida de sucesso que a fêmea utiliza nas suas escolhas individuais. O interessante é que essa medida de sucesso utilizada pela fêmea levou a um processo evolutivo em que as novas gerações da espécie se tornaram cada vez mais coloridas, mais bonitas, maiores e, consequentemente, se tornaram presas fáceis. Esse processo evolutivo, em que a medida do sucesso e o incentivo natural estava "equivocado", levou ao quase desaparecimento da espécie que só foi salva pela intervenção do homem ao decidir que o pavão era, usando o jargão dos autores, "too beautiful to fail" (muito bonito para falhar).
Na analogia com o mundo dos negócios, os autores afirmam que algumas empresas podem estar caminhando na mesma direção do pavão, ao adotarem como únicas medidas de sucesso a maximização do retorno de curto prazo e o tamanho de suas fatias de mercado, oriundas de um modelo de competição de "soma zero", no qual a empresa ganha quando seus concorrentes e fornecedores perdem. Se essa é uma possibilidade para muitas das empresas americanas analisadas por Meyer e Kirby, é certamente o caso de boa parte das empresas que atuam no setor de planos de saúde brasileiro - saúde suplementar. O foco na geração de caixa e retorno de curto prazo e o modelo de competição voraz por quem fica com a maior fatia dos lucros, entre os atores desse mercado, têm levado a conflitos constantes entre planos, hospitais, médicos e indústrias de materiais e medicamentos.
Tais conflitos, por consequência, aumentam brutalmente os custos de transação e geram ineficiência e insatisfação generalizada. Como cita o professor de finanças de Harvard, Michael Porter em seu livro "Redefining Health Care", o mercado de saúde precisa mudar para um modelo que seja focado - e premiado - pelo valor que se agrega ao paciente. Ou seja, planos, hospitais, médicos e indústria precisam ter como medida de sucesso a competência com a qual enfrentam as necessidades particulares do paciente ao longo de todo o ciclo de cuidado (monitoramento, prevenção e tratamento). Porter argumenta ainda que, ao contrário do que se possa pensar, esse modelo custa menos e não mais e, portanto, aumenta a saúde financeira das empresas e do sistema como um todo.
Agregar valor ao paciente oferecendo-lhe mais qualidade e mudando o modelo de cuidado propicia diagnósticos mais precisos, menos erros no tratamento, menos complicações, recuperações mais rápidas, intervenções menos invasivas e menos necessidade de tratamento.
Mas se a mudança da medida de sucesso gera ganhos para todos, por que os atores desse mercado ainda não migraram para esse novo modelo? Entre as possíveis explicações estão as incertezas inerentes a todo processo de mudança, as mudanças nos processos de trabalho, a necessidade de investimentos em tecnologia da informação, uma possível desvantagem competitiva de curto prazo para as empresas pioneiras, dificuldade de obtenção de consenso sobre como medir qualidade, desconfiança mútua, inércia, visão das lideranças do setor e o mais importante: faltavam incentivos mais claros. Para suprir essa necessidade, um órgão regulador que lidere esse processo de mudança faz toda diferença.
Algumas ações da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que se tornaram compromisso através da edição de sua agenda regulatória 2010/2011, estão claramente impregnadas do conceito de que é preciso mudar o modelo. Dentre essas medidas que induzem as operadoras a agregar valor ao paciente, destacam-se a resolução que permitiu aos planos estabelecer incentivos econômicos aos beneficiários que entrem em programas de prevenção e envelhecimento ativo e o programa Qualiss, que colocará à disposição de todos informações sobre a qualidade objetiva dos hospitais e clínicas de diagnóstico da rede prestadora.
Adicionalmente foi implementada norma que determinou tempo máximo de espera para atendimento das demandas dos pacientes; estuda-se um modelo mais racional e menos conflituoso de pagamento entre planos de saúde e hospitais e avançou-se na implementação do padrão de troca de informações do setor, que permitirá informação relevante para avaliar todas as demais ações.
Direta ou indiretamente, essas medidas incentivam a mudança na forma como a operadora se relaciona com os prestadores de serviço médico. Ao estabelecer tempo máximo de atendimento, incentiva-se uma relação contratual que leve em conta a conveniência do consumidor. Por sua vez, ao divulgar o nível de qualidade dos prestadores, o programa Qualiss incentiva arranjos contratuais e de remuneração diferenciados por qualidade, além de aumentar o interesse das operadoras em terem prestadores qualificados em sua rede assistencial.
Quando a medida do sucesso deixa de ser a geração de caixa de curto prazo e o exercício do poder de barganha (a cauda colorida do pavão) e passa para um modelo que premia a qualidade da assistência, todos ganham. Esse é um processo de mudança que leva tempo e os incentivos para mudar o modelo precisam ser constantemente revisados e reforçados mas, certamente, suas bases já começaram a ser postas pelo órgão regulador.
Bruno Sobral é diretor de desenvolvimento setorial da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
terça-feira, 5 de junho de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
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